Gastão vai lançar agora o seu primeiro livro "A Juventude de um Patrão". Um livro real, a lembrar os bons velhos romances existencialistas, "que deu muito trabalho para ser curto". Uma boa novidade no mundo da literatura
Quando cheguei à “sua esplanada” já tinha bebido três imperiais: “estou um pouco nervoso” – confessa. Convida-me a sentar e puxa de um cigarro. “Vamos a isto”.
Porquê a escrita?
Sempre admirei escritores, e sempre li muito. Não me imagino a fazer mais nada. No fundo, não consigo dar uma razão muito lógica. É o que sei fazer melhor.
Qual é o seu método de escrita?
O meu método de escrita é baseado no cinema, na cinemática. Porque eu aprendi a fazer argumentos, foi essa a minha formação. Então tento escrever sempre de uma maneira fácil de ler, de uma maneira cinematográfica, no fundo.
Por favor, fale-nos um pouco da sua obra. Como surgiu a ideia inicial?
Foi uma epifania, toda a literatura parte do caos. E toda a literatura é também ela autobiográfica. No fundo, estava irritado com os gajos que têm BMW e Mercedes Benz.
O título “A juventude de um patrão” acaba por ser um título irónico. Dada esta crise, optaria por abdicar da juventude para ser patrão, ou abdicaria do poder para ser jovem?
O que eu pretendo transmitir é que o conhecimento vale mais do que o dinheiro.
Artur, a personagem principal deste livro tem 23 anos. É um resignado, insatisfeito acerca do futuro da sua vida, ainda assim impotente nas atitudes que pratica. Acha que esse é o maior problema desta nova geração de adultos?
Esta nova geração tem de lidar com coisas com as quais a minha não teve. Não acho que esta geração seja rasca, muito pelo contrário. É uma geração competente que está a pagar por muitos erros das gerações anteriores. Não é de forma nenhuma uma geração impotente.
Não sendo um livro sobre amor, acaba por falar nele, ou na falta dele. Especialmente o amor próprio. Somos uma sociedade pouco virada para o amor próprio?
Essa franja que pretendo retratar através do Artur é de facto pouco virada para o amor próprio. É infeliz. Têm Mercedes Benz, vão passar férias às Seychelles, vão comer a restaurantes caros, são patrões, são ricos mas são uns infelizes do caraças, e isso no fundo não vale nada.
Neste livro existe um claro contraste entre a riqueza material e a riqueza espiritual. Um velho paradigma da literatura. No entanto, a personagem acaba por ceder à riqueza material. Acha que em posição de escolha, já não há esperança para a riqueza espiritual?
Acho que há. A riqueza material é sobrevalorizada. Dá-nos uma falsa ideia de conforto e no fundo mascara a infelicidade. O problema é que o que é material terá sempre um fim. O espiritual pode ser infinito.
Qual a ideia principal que pretende transmitir com o final do livro?
Setenta por cento do livro é do leitor. Cada um o vai interpretar de maneira diferente. Não quero estar aqui a dar nenhuma tese sobre valores morais, valores morais tem o papa.
Sendo também cineasta, se lhe propusessem a transposição de um livro seu para o formato filme, aceitaria?
Eu já tenho um filme escrito. Estou neste momento a tentar que um realizador faça o filme. O que acontece é que não estou para ficar um ano à espera de uma resposta do ICA (Instituto de Cinema e Audiovisual). Não sou subsidiodependente , não gasto 900 000 euros para fazer filmes que os portugueses não vêem.
O IVA de todos os bens culturais à excepção dos livros foi aumentado para 23 por cento, concorda com esta medida?
O país está em crise. Abstraio-me desse facto. Não penso muito sobre isso.
Qual a sua opinião acerca do novo Acordo Ortográfico?
A língua portuguesa contempla a evolução, a forma popular de se falar. É como o fado, também vai mudando.
Como vê o estado da literatura e das artes em geral no nosso país?
Parecendo que não, ainda somos um país que dá valor às artes. Os feriados nacionais costumam ser dias de revolução, militares. Que eu conheça somos o único país cujo feriado nacional é o dia de um escritor.
É de alguma maneira relacionado com o General Gastão Sousa Dias, republicano e também ele escritor e revolucionário dos primeiros tempos do Salazarismo?
Sou sobrinho-bisneto dele. Mandou prender o meu bisavô que era monárquico.
Foi de alguma maneira influênciado por ele?
Não sei, não faço ideia. O que conquistei foi por mim. Mas tenho obviamente muita estima, pelo facto de ele ser meu tio-bisavô e de ter herdado o nome dele. Não esquecendo o facto de que nos combates entre a Monarquia e a República foram travados entre militares. Toda a gente tem um militar na família, toda a gente conhece um, são como os emigrantes. Como diz Fernando Pessoa :“ É especial porque é meu”.
Porque é que odeia tanto o meio artístico lisboeta?
Odeio o meio artístico lisboeta porque são um bando de provincianos e de snobes. Porque têm a mania que são mais do que os outros. Conheci muitos intelectuais na vida, mas como dizia Woody Allen: “É preciso um bocadinho mais do que comer queijo, beber vinho e dissertar sobre autores para se trabalhar no campo da arte.” Acham que têm de fazer cara triste para parecerem mais inteligentes.(aponta para a televisão) Eu gosto é do “Preço Certo”, e da Claudisabel que tem uma música que diz: “ando feliz, por tudo e por nada”. Há diferenças entre intelectuais e artistas. O intelectual tem um medo crónico de fazer má figura.
Projectos para o futuro?
Estou a escrever o segundo livro, que tenciono traduzir para inglês. Ás vezes é mais fácil editar no estrangeiro do que em Portugal.
Que conselho daria a alguém que queira lançar o seu primeiro livro?
Persistam, nunca desistam. Porque compensa e este país precisa. Não se fazem sociedades avançadas sem cultura e conhecimento.

Gastao, gostei muito de o conhecer embora em circunstancias um pouco insolitas (na roulotte C. Grande).Espero o maior sucesso com o seu livro.
ResponderEliminarAnonima
Bonito bonito era lançar o livro.
ResponderEliminarConversa tem muita de facto mas...
ResponderEliminarA frequentar as Roulotes do Campo Grande vai longe...
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